Ir para o conteúdo
Política BR
Opinião

A virada de Lula no 2º turno: o que é estranho de verdade e o que não é

Testei com os dados oficiais do TSE as contas que circulam nos vídeos. Umas estão certas, outras não provam o que dizem, e uma coisa ainda pede explicação

Tiago RezendeTiago Rezende30 de out. de 2026

Em 30 segundos

  • É verdade: foi a primeira vez desde 1989 que quem liderou o 1º turno para presidente perdeu o 2º.
  • Não se sustenta: nos dados oficiais, nem os votos sem biometria, nem as cidades com muitos eleitores, nem os votos depois das 17h explicam a virada.
  • Ainda pede explicação: as duas maiores pesquisas erraram para fora da margem, e a prorrogação do horário foi anunciada, mas quase não apareceu nas urnas.

1ª vez — desde 1989, que quem liderou o 1º turno para presidente perdeu o 2º

Desde domingo, circulam vídeos dizendo que a virada de Lula foi "um milagre estatisticamente impossível". Eu sou o colunista de dados do Política BR, e o meu trabalho é este: pegar cada conta, refazer com os números oficiais e dizer o que se sustenta. Não é questão de lado. É questão de fato.

Usei só dados públicos: o resultado oficial do TSE por município (2018, 2022 e 2026) e os registros das próprias urnas (os chamados logs), que o TSE publica e que o site já guarda, seção por seção.

1. O que é verdade

A virada é real e é inédita para presidente. No 1º turno, Flávio Bolsonaro teve 47,0% dos votos válidos e Lula, 45,2%. No 2º, Lula teve 51,8% e Flávio, 48,2%. Desde 1989, nos sete 2º turnos para presidente, quem ficou em primeiro no 1º turno sempre ganhou. Em 2026, pela primeira vez, não ganhou.

As contas do vídeo sobre os votos "em jogo" estão certas. Entre um turno e outro, Lula ganhou 10,3 milhões de votos e Flávio, 3,7 milhões. O vídeo de @republiqueta7x1 conclui que Lula precisava de 6 em cada 10 eleitores de Cury, Renan Santos, Caiado e Zema. É uma conta de saldos e, como conta, fecha. Mas a estimativa município a município mostra outro caminho: dos eleitores de todos os candidatos que ficaram de fora, somados, cerca de 51% foram para Lula e 37% para Flávio; olhando só os de Renan Santos e Caiado, à direita, foram mais para Flávio (48%) do que para Lula (43%), e o resto da virada veio de quem tinha anulado ou votado em branco no 1º turno e de quem só foi votar no 2º (ver a parte 3).

2. O que não se sustenta

"Foram os votos sem biometria." Se fosse isso, Lula teria crescido mais justamente onde a digital mais falhou. Não foi o que aconteceu: ele cresceu praticamente o mesmo onde o voto sem digital ficou igual e onde subiu, e esses dois grupos somam quase todos os eleitores. Separei os municípios pela mudança no número de votos sem digital entre os turnos:

Votos sem digital entre os turnos Lula cresceu Flávio cresceu
Diminuíram 6,9% 4,2%
Ficaram iguais 8,1% 2,9%
Aumentaram 8,2% 2,8%

O crescimento de Lula foi praticamente o mesmo em todo lugar. E os votos sem digital aumentaram só 623 mil entre os turnos. Mesmo que todos fossem falsos e todos de Lula, ele ainda teria vencido por cerca de 3,8 milhões.

"A falha de biometria favorece Lula." É verdade que, onde a digital falha mais, Lula tem mais votos. Mas esses mesmos municípios já votavam em Lula em 2022, nas mesmas proporções. A diferença já estava lá antes. É perfil do eleitorado, não fraude.

"Cidade com quase um voto por habitante." O vídeo de @BarbieriPeres mostra que em Catolândia, na Bahia, 3.372 pessoas votaram no 2º turno, e o Censo conta 3.434 habitantes. Em Saubara, foram 10.635 votantes para 11.438 habitantes. Os números estão certos, mas o padrão não é novidade do 2º turno: no 1º turno, 21 dias antes, já tinham votado 3.346 e 10.317 pessoas. Nem é novidade de 2026: em 2022, Catolândia já deu 3.126 votos válidos para presidente, e Saubara, 9.297 (7.763 em 2018). O título de eleitor não precisa ser da cidade onde a pessoa mora: basta ter vínculo, como família, trabalho ou casa de praia. Não é uma novidade de 2026.

"As pesquisas davam 3 em 1000 de chance." Datafolha e Quaest deram, na véspera, Flávio com 51% e Lula com 49% dos votos válidos, com margem de 2 pontos. Lula teve 51,8%. A conta de "3 em 1000" só vale se o único erro possível de uma pesquisa for o da amostra. Não é. Na véspera do 1º turno de 2022, o mesmo Datafolha deu Bolsonaro com 36% dos válidos, e ele teve 43,2%: um erro de 7 pontos, a favor de Bolsonaro. Pela mesma conta, aquilo seria "impossível". Pesquisa erra para fora da margem, para os dois lados.

Os vídeos dizem que "a decisão do STF mudou o resultado". Aqui há um fato que precisa ser dito: segundo a Gazeta do Povo, o ministro Cristiano Zanin prorrogou, por decisão individual, a votação do 2º turno até as 19h, a pedido da coligação de Lula. A campanha de Flávio contesta a eleição na Justiça, alegando que a mudança de horário feriu o Código Eleitoral, e isso é uma discussão jurídica legítima. Mas a parte que dá para medir é esta: os registros das urnas mostram quantos votos foram dados depois das 17h, horário de Brasília. No 1º turno, sem prorrogação, foram 3,7 milhões. No 2º turno, com a prorrogação, foram só 34 mil, e quase todas as seções (490.338 de 497.896) fecharam antes das 18h. Mesmo que todos esses 34 mil votos fossem de Lula, seriam menos de 1% da diferença de 4,4 milhões. A decisão pode ser discutida nos tribunais, mas ela não explica a virada.

"Virada assim é impossível." Olhe para os governadores: desde 2018, em 8 dos 32 segundos turnos, quem ficou em primeiro no 1º turno acabou derrotado. Para presidente é raro, mas na política brasileira acontece.

3. O que ainda pede explicação

Há duas coisas que eu não varro para debaixo do tapete:

  • As pesquisas erraram para fora da margem, e as duas maiores juntas. Isso merece uma explicação dos institutos.
  • A prorrogação que quase não apareceu. A votação foi prorrogada até as 19h, mas os registros mostram que quase todas as seções fecharam antes das 18h. Não muda o resultado, mas o TSE deve explicar como a decisão foi aplicada.
  • Para onde foram os votos. Pela minha estimativa, feita município a município, os eleitores de Renan Santos e Caiado, somados, foram mais para Flávio (cerca de 48%) do que para Lula (cerca de 43%). Lula cresceu sobretudo com quem tinha anulado ou votado em branco no 1º turno (cerca de 7 em cada 10) e com quem só foi votar no 2º turno (cerca de 6 em cada 10). É uma estimativa: mostra o que aconteceu nos municípios, não como cada pessoa votou.

4. O teste urna por urna

Prometi e fiz: baixei o resultado de cada uma das 499 mil seções nos dois turnos. A soma bate, voto a voto, com o total oficial.

"Urnas que davam votos a Flávio no 1º turno e zero no 2º." Existem: são 56 seções, que somam 118 votos de Flávio no 1º turno. Ficam sobretudo no Norte e no Maranhão (17 no Amazonas, 13 no Maranhão, 8 no Pará e 6 em Roraima), em municípios como Atalaia do Norte e Uiramutã, que têm grandes terras indígenas. Em todas, Lula já tinha mais de 79% dos votos no 1º turno, e em 49 delas, mais de 90%. O mesmo acontece ao contrário em escala menor porque Flávio quase não tem seções assim: no 2º turno, Lula passou de 97% dos votos em 759 seções, e Flávio, em 16. Esse padrão já existia no 1º turno, que Flávio venceu (81 seções com zero voto para ele, 8 com zero para Lula). E 118 votos não mudam uma diferença de 4,4 milhões.

O que fica

A virada aconteceu e é inédita para presidente. Os números que mais circulam, como votos sem digital, cidades com muitos eleitores e o "3 em 1000", não provam fraude quando se olham os dados inteiros e os anos anteriores. O que sobra para explicar são o erro das pesquisas e a forma como a prorrogação do horário foi aplicada. É aí que vale a pena cobrar respostas.

Correção (31/10/2026): a primeira versão dizia que cerca de 6 em cada 10 eleitores de Renan Santos pareciam ter ido para Lula. Refiz a estimativa de outras formas e esse número não se sustenta: varia de 8% a 61% conforme o cálculo, porque o candidato teve poucos votos em cada município. Só os grupos maiores dão um resultado estável, e é ele que está agora no texto. Acrescentei também o teste urna por urna que a coluna prometia e precisei a descrição das 56 seções: em 49 delas, e não em quase todas, Lula tinha mais de 90% no 1º turno.

Opinião se discute. Dado se confere.

Comentários