O teste nas mesmas seções eleitorais: o que ele mostra sobre a virada, e o que não mostra
O ganho de Lula no segundo turno foi espalhado pelas seções, e os votos sem digital não acompanham esse ganho.
Tiago Rezende01 de nov. de 2026Em 30 segundos
- O Política BR comparou as mesmas seções eleitorais nas duas últimas eleições para presidente.
- O ganho de Lula entre os turnos foi espalhado pelas seções, não concentrado em poucas.
- Os votos sem digital não têm relação com esse ganho dentro do mesmo município.
440.385 — seções eleitorais com número igual e tamanho parecido em 2022 e 2026
Na coluna sobre a virada, prometi voltar com o teste seção por seção. Ele está feito. O Política BR juntou os boletins de urna de presidente das duas últimas eleições, e a soma de todas as seções bate com o resultado oficial do TSE.
Nem toda seção dá para comparar: a Justiça Eleitoral renumera e junta seções entre uma eleição e outra. Ficaram as que têm o mesmo número e tamanho parecido nas duas. O eleitorado apto por seção não está nestes dados, por isso a abstenção só dá para medir por município.
O centro do teste é o ganho de cada candidato do primeiro para o segundo turno, seção por seção. Pela mediana das seções, desta vez Lula ganhou 6,9 p.p. e Flávio Bolsonaro, 1,8 p.p. Na eleição anterior tinha sido ao contrário: quem mais ganhou entre os turnos foi Bolsonaro.
A mediana diz que o ganho de Lula foi espalhado pelas seções, e não puxado por um punhado delas. Um aviso: ganho de fatia não é mudança de opinião. Ele junta eleitores de outros candidatos do primeiro turno, quem votou só num dos turnos e quem tinha votado em branco ou nulo.
A pergunta que motivou a coluna anterior era a dos votos sem digital. Dentro do mesmo município, a correlação entre esses votos no segundo turno e o ganho de Lula é de -0,011, e praticamente zero também para Flávio Bolsonaro. Ou seja, nenhuma relação.
Há ainda um teste de controle: o mesmo cálculo com o ganho de Lula na eleição anterior, quando esses votos não podiam ter efeito, dá +0,022. Também nada. A biometria não explica o ganho.
Por fim, as seções fora do padrão: as que ganharam muito mais do que a própria seção na eleição anterior, levando em conta o tamanho de cada uma. São 5 para Lula e 7 para Flávio Bolsonaro. Só por acaso, se esperariam cerca de 14 de cada lado. As que parecem extremas em pontos percentuais são seções pequenas, onde poucos votos mudam muito a porcentagem.
O que o teste mostra: nos boletins, seção por seção, não aparece o padrão que uma fraude concentrada deixaria. O que ele não mostra: por que cada eleitor votou como votou. Isso os boletins não dizem.
Opinião se discute. Dado se confere.